Quando o Mundo Cabe numa Tela
- João Castro
- 25 de fev.
- 3 min de leitura
Estava rolando o feed — como sempre, sem muito propósito — quando um vídeo me parou no meio do gesto automático do polegar. Uma criança engatinhando, completamente presente no mundo ao seu redor. Até o momento em que uma tela foi colocada à sua frente. O que aconteceu em seguida diz algo sobre nós que preferiríamos não ouvir.

Quando o Mundo Cabe numa Tela
Estava rolando o feed — como sempre, sem muito propósito, aquele gesto quase automático do polegar que a gente faz sem perceber que está fazendo. E no meio de tantas coisas que passam sem deixar rastro, um vídeo me parou.
Uma mãe filmava a filha engatinhando. Coisa simples. A criança estava no chão, cercada de brinquedos coloridos, e havia nela uma espécie de presença que me surpreendeu — não sei bem por quê, talvez porque a gente já não esteja tão acostumado a ver isso. Ela estava ali. Completamente. Seguia o brinquedo com os olhos, explorava a textura com as mãos, interrompia tudo quando o cachorro da família passava perto — a cabeça virava instantaneamente, o corpo inteiro se reorientava para aquela novidade. Quando a mãe chamou o nome dela, ela respondeu na hora, olhou para cima, e havia naquele olhar uma espécie de abertura, de disponibilidade para o mundo.
Eu fiquei assistindo sem saber direito o que estava vendo. Era só uma criança brincando. Mas era também algo que parecia raro demais para ser banal.
Então a mãe colocou o celular na frente dela. Um desenho do YouTube. E ali aconteceu uma das coisas mais perturbadoras que já vi num vídeo de trinta segundos.
A mudança foi imediata. Não gradual. Não suave. Imediata.
Os brinquedos deixaram de existir. O cachorro passou de novo — e dessa vez não houve virada de cabeça, não houve curiosidade, não houve nada. A mãe chamou o nome. Silêncio. Chamou de novo. Nada. A criança estava fisicamente no mesmo lugar, no mesmo chão, com os mesmos joelhos apoiados no tapete — mas havia ido embora para algum lugar que não tinha janelas nem portas.
Penso muito sobre o que é estar presente. É uma das questões centrais do que faço, do que estudo, do que me interessa na existência humana. E esse vídeo me mostrou algo com uma clareza que raramente se consegue em palavras: a tela não nos distrai do mundo. Ela nos substitui por outro mundo. Um mundo que não exige nada de nós — nenhuma negociação, nenhuma frustração, nenhuma espera, nenhum cachorro que às vezes ignora a gente.
A criança engatinhando era um ser em relação. Com o chão, com os objetos, com os sons, com os outros. Era um ser que habitava um espaço e deixava esse espaço habitá-la. Os filósofos chamam isso de estar-no-mundo, mas não precisa de nome difícil — qualquer um que já viu uma criança explorando algo pela primeira vez sabe exatamente do que se trata. É aquela atenção que ainda não aprendeu a fingir que não está prestando atenção.
Mas diante da tela, essa relação se fechou. E o que ficou foi uma figura humana num espaço que já não lhe dizia mais nada.
Não estou aqui para culpar a mãe. Ela provavelmente queria um minuto de paz, ou estava filmando exatamente para mostrar esse contraste, ou simplesmente fez o que a maioria de nós faz dezenas de vezes por dia sem pensar. E não estou aqui para demonizar as telas, que têm usos e belezas e conexões reais acontecendo dentro delas.
Estou pensando no gesto do polegar. No meu próprio gesto do polegar, que encontrou aquele vídeo enquanto eu mesmo estava ausente do lugar onde estava sentado.
Estou pensando em quantas vezes o mundo chama o nosso nome e a gente não responde. Não porque seja mal-educado, não porque não queira — mas porque foi embora para aquele lugar sem janelas, e não percebeu a hora em que saiu.
A criança voltará. Tem toda a vida pela frente para aprender a estar presente e a se perder de novo. O que me inquieta é que a maioria de nós, adultos, já perdeu a conta de quantas vezes partiu sem avisar — e quase não estranha mais quando o mundo chama e a gente não ouve.
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